novembro 16, 2010

A dor de cabeça de Davi*

A dor de cabeça de Davi (conto)


Davi beijou as costas nuas da mulher deitada na cama. Apreciou o suave relevo do corpo que desejara há muito – e que só agora pudera ter. Não podia negar nem na hora do Juízo Final que aquela mulher o levara à loucura durante todo o último ano. Finalmente dormiu com ela. Gostaria de poder contar a todo mundo que bela conquista a sua. Deus me livre dessa história, um dia, ser conhecida, pensou. Ana ao toque dos lábios do amante, ronronou de prazer, se mexeu bem pouquinho, falando sem abrir a boca que estava acordada, que apreciou o carinho e que queria mais... Quanto mais, melhor. Davi, entretanto, não sentiu nenhum prazer agora. Sentiu um arrepio, como se uma descarga de alguns poucos volts percorresse devagarinho toda a sua espinha dorsal. Era medo. Vamos ser sinceros? Era o começo de um pavor que estava lhe dominando. Davi sabia que aquele primeiro encontro romântico poderia evoluir para um pequeno escândalo e depois para o fim de seu casamento. Desconfortável, se levantou da cama e foi tomar um banho. A água jorrava farta, morna e gostosa, mas o corpo e a mente de Davi estavam em brasas. Disse a si mesmo que na primeira oportunidade acabaria com o relacionamento. Afirmou para si mesmo que aquilo era uma insanidade, uma loucura de amor – gostoso, tinha de admitir – mas que não poderia prosperar. Esse seria o primeiro e o último encontro deles. Reafirmou o seu amor pela sua esposa e pelas suas filhas. Ela não poderia jamais saber nada dessa tarde inesquecível. Se ela sonhasse com isso, meu Deus! Quando passou pela cama, indo se vestir, Ana o acompanhou com os olhos. Ele sorriu, meio amarelo. Ana retribuiu com um sorriso de cumplicidade que só as mulheres seguras sabem dar e disse que gostou muito daquela tarde. Ele tornou a sorrir, dessa vez mais à vontade. Ana afirmou que não queria prejudicar sua família nem a dele e que Davi ficasse tranqüilo quanto ao segredo dos dois. Esse seria o segredo deles, de ninguém mais. Davi abraçou Ana e só não fez amor de novo porque seu medo de ser descoberto ali, àquelas horas da tarde, era maior que sua vontade de desalinhar ainda mais os lençóis. Só a muito custo vestiu as roupas, engomando tudo com as mãos. Percebeu, somente depois de ter calçado os sapatos, que as meias estavam viradas pelo averso.
- “Vou embora, já está tarde... Depois a gente se fala... Amanhã ou depois”. Ele sabia que acabara de dizer uma das três maiores mentiras de toda sua vida. Talvez até quisesse mesmo cumprir a promessa, mas estava aterrorizado demais com os possíveis desdobramentos daquela tarde. Ana era tudo que ele queria ter, mas representava tudo que ele não poderia ter (ademais, nunca confie em ninguém que usa tantas reticências numa única despedida). Beijou seu objeto de desejo pela última vez e, quando ia saindo, já com medo de ser flagrado, Ana sussurrou juntinho ao seu ouvido: - “Sei seu telefone, eu te ligo qualquer hora dessas!” Daria para ouvir de longe o baque do coração de Davi indo parar num dos dedões do pé. Ele, se não captou, deveria ter captado a mensagem que “o-segredo-daquela-tarde-seria-mantido-a-custa-de-mais-tardes-de-segredos”.

Ana, definitivamente, também estava no controle (observe como usou bem o ponto de exclamação, mesmo cochichando). Davi fez que sim, desconversou e foi para casa. No caminho, congratulou-se, a mente reprisando os trechos mais ardentes do encontro, e se repreendeu: ele era, afinal, um homem de família! Disse a si mesmo que não queria mais saber de Ana. Pronto, era o fim!Iria acabar o que nem começara direito assim que tivesse uma oportunidade. Não era justo continuar, era? Claro que não. A não ser que sua esposa morresse... Isso mesmo: quando sua esposa morrer poderá ter Ana para sempre ( desejável, ardente, fogosa) em seus braços. E se ela não morresse nunca? E se ele ou Ana morresse primeiro? Deu um soco no volante, irado consigo mesmo por ter cogitado a morte da mãe de seus filhos. Sou um patife mesmo, ponderou, com a mente exaurida. Quando chegou em casa, sua mulher tomou um susto: - “tão cedo em casa?! O que aconteceu?!” Davi cometera seu primeiro ato falho em anos: deveria ter voltado para o trabalho, não para casa. Respondeu que estava morrendo de dor de cabeça e perguntou se tinha um tylenol em algum lugar. A mulher deixou tudo e foi acudir o marido. Tinha visto um comprimido de paracetamol em alguma das gavetas na cozinha.

Geraldo Magela
*Surubim, 30 de janeiro de 2010.

Um comentário:

Bruniele disse...

Dá pra entrar pro livro das crônicas!
ótimo!!
Traição...
A pior coisa que existe...
É como mentir discaradamente e ainda fazer de conta que nada aconteceu